Resposta direta
Não pela forma da mordida em si. A ciência mais sólida mostra que a oclusão (como os dentes encaixam) não tem relação de causa com a disfunção da articulação (DTM) — mordida profunda, mordida cruzada ou Classe II não predispõem a dores ou estalidos, e corrigir a mordida não previne nem trata esses problemas. Muitas vezes é até ao contrário: é a disfunção da articulação que pode alterar a mordida. Por isso, tratamentos dentários agressivos e irreversíveis feitos só para “proteger a articulação” não se justificam. Quando há dor, as abordagens de primeira linha são suaves e reversíveis (aconselhamento, hábitos, por vezes uma goteira ou fisioterapia). O que merece atenção não é a forma dos dentes, mas sinais como dor, ruído com dor ou ranger de dentes — muitas vezes ligados ao sono e à respiração. Em Oliveira de Azeméis, avalio o conjunto, com meios suaves e a tempo.
A mordida torta do meu filho vai dar-lhe dores ou estalidos na articulação?
É um receio comum, e compreensível: se os dentes estão tortos ou a mordida não encaixa bem, não será só uma questão de tempo até aparecerem dores na mandíbula, estalidos ao abrir a boca, ou problemas na articulação? A resposta da ciência mais sólida é tranquilizadora e, ao mesmo tempo, exige honestidade da minha parte: a forma da mordida, por si só, não é a causa dessas dores.
Quando observo uma criança, não leio a mordida como se ela explicasse tudo o resto. Observo desenvolvimento — como respira, como dorme, como usa a língua e os músculos. A mordida é uma peça; não é o motor de todos os sintomas que possam aparecer mais tarde.
O que é a “disfunção da articulação” (DTM)?
A articulação temporomandibular (ATM) é a “dobradiça” que liga a mandíbula ao crânio, à frente de cada ouvido. Quando há dor nessa zona, ruído ao abrir/fechar, ou dificuldade em abrir bem a boca, fala-se de disfunção temporomandibular (DTM). É relativamente comum na população em geral, e a forma mais frequente é um pequeno deslize do disco da articulação, muitas vezes com um “clique”.
Durante décadas pensou-se que uma mordida “errada” — dentes tortos, mordida profunda, mordida cruzada — fosse a causa destes sintomas. Hoje, a literatura científica mais cuidada diz outra coisa.
O que diz a ciência sobre a mordida e a articulação?
Uma revisão clínica recente, que reúne a melhor evidência disponível, é clara: a oclusão (a forma como os dentes encaixam) não tem relação de causa com a disfunção da articulação. Mordida profunda, mordida cruzada e a chamada Classe II não predispõem a estes problemas — e, num estudo, foram até descritas como “parcialmente protetoras”. As pequenas “interferências” ou “pontos altos” na mordida também não mostraram causar dor na articulação.
Há ainda um pormenor que inverte a intuição: muitas vezes a relação é ao contrário. É a disfunção da articulação que pode alterar a mordida (por exemplo, criar uma mordida aberta de um lado), e não a mordida a causar a disfunção. Ou seja, uma mordida que muda pode ser um sinal de algo na articulação — não a sua origem.
Então preciso de endireitar os dentes para evitar dores na articulação?
Aqui sou muito direta, porque é onde mais se exagera: não. Corrigir a mordida — com ortodontia, com ajustes ou com reabilitações — não previne nem trata a disfunção da articulação. A mesma literatura diz que tratamentos dentários agressivos e irreversíveis feitos só com o objetivo de evitar ou tratar dores na articulação não se justificam.
Isto é importante para os pais: ninguém deve sentir que tem de submeter uma criança a tratamentos pesados “para proteger a articulação”. Não é assim que funciona, e a prudência manda preferir sempre o reversível e o simples.
E quando aparece mesmo dor ou estalido?
A maioria dos estalidos sem dor não exige tratamento — apenas observação. Quando há dor, as abordagens de primeira linha são reversíveis e suaves: aconselhamento, hábitos, e em certos casos uma goteira (uma placa removível) ou fisioterapia — que, em vários estudos, foi tão eficaz como a goteira. Nada disto é irreversível, e nada disto passa por “desmanchar” a mordida da criança.
O que merece mais atenção não é a forma dos dentes, mas o conjunto de sinais ao longo do tempo: dor na zona da articulação ou nos músculos da face, ruído com dor, dificuldade em abrir a boca, ou o bruxismo (ranger os dentes) — muitas vezes ligado ao sono e à respiração, não à mordida.
Onde entra a respiração e o sono
Há uma exceção honesta que vale a pena explicar. Em algumas crianças, uma mandíbula recuada (a tal “Classe II”) coexiste com apneia do sono. Quando se cuida da respiração e do sono e os sintomas melhoram, a melhoria deve atribuir-se à via aérea, não ao facto de se ter mexido na mordida. É a função — respirar, dormir, mastigar — que comanda, não a estética do encaixe dentário.
Por isso, quando uma criança tem sinais na articulação e ressona, respira pela boca ou dorme mal, o caminho não é endireitar os dentes a pensar na articulação: é avaliar a respiração e o sono, em articulação com a otorrinolaringologia e a pediatria.
O que faço como médica dentista
Como médica dentista, o que me compete é observar e orientar o crescimento dos maxilares e a função, com meios reversíveis e suaves, e rastrear sinais de disfunção da articulação para gerir ou referenciar quando é preciso. Não proponho endireitar a mordida “para proteger a articulação”, porque a evidência não o sustenta. Proponho cuidar da função e do crescimento de forma honesta, e tranquilizar quando o que existe é apenas uma variação normal.
Quando e com quem avaliar
Não é preciso alarme. Se o seu filho tem dentes tortos ou uma mordida que não encaixa bem, isso não significa que vá ter dores na articulação. Se aparecerem dor na mandíbula, estalidos com dor, dificuldade em abrir a boca, ou ranger de dentes frequente — sobretudo se vier acompanhado de ressonar ou respiração pela boca — então vale a pena avaliar o conjunto.
Em Oliveira de Azeméis, é assim que penso a Consulta Respira e Cresce 360: não para tratar a articulação a partir da mordida, mas para distinguir o que é variação saudável do que merece ser observado, com meios suaves e a tempo. Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Cada criança é única e merece um olhar feito à medida.
Perguntas frequentes
A mordida torta do meu filho vai causar dores na articulação? A forma da mordida, por si só, não é a causa. A melhor evidência mostra que a oclusão não tem relação causal com a disfunção da articulação (DTM): mordida profunda, mordida cruzada e Classe II não predispõem a dores ou estalidos. Muitas vezes é ao contrário — é a disfunção que pode alterar a mordida. Ter dentes tortos não significa que vá ter dores na articulação.
Preciso de endireitar os dentes para evitar problemas na articulação? Não. Corrigir a mordida não previne nem trata a disfunção da articulação, e tratamentos dentários agressivos e irreversíveis feitos só com esse objetivo não se justificam. A prudência manda preferir sempre o reversível e o simples, e cuidar da função — não submeter uma criança a tratamentos pesados para “proteger a articulação”.
E se já tem dor ou estalidos ao abrir a boca? A maioria dos estalidos sem dor só precisa de observação. Quando há dor, as abordagens de primeira linha são reversíveis e suaves: aconselhamento, hábitos e, em certos casos, uma goteira (placa removível) ou fisioterapia — que foi tão eficaz como a goteira em vários estudos. Nada disto passa por desmanchar a mordida da criança.
O bruxismo (ranger os dentes) tem a ver com a mordida? Habitualmente está mais ligado ao sono e à respiração do que à forma da mordida. Por isso, quando há ranger de dentes frequente, sobretudo com ressonar ou respiração pela boca, faz sentido avaliar o sono e a respiração — em articulação com a otorrinolaringologia e a pediatria — em vez de mexer na mordida.
Para aprofundar este tema no contexto do cuidado da clínica, consulte ATM e dor orofacial.
